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Foto: Ouriços
pequenos animais selvagens, aves de rapina e pequenas aves que cantarolavam e alegravam a selva. Estes três macacos eram da raça dos gorilas. As pessoas também têm raça: os brancos, os negros, os vermelhos e os amarelos – espalhados pelos cinco continentes do Mundo (África, Europa, Ásia, Oceânia e América, pois no Antárctico não há vida. Estes gorilas eram todos bem gordinhos e rechonchudos, pois a vida permitia-lhes tal virtude. O pai era o rei dos macacos, a mãe era a rainha e o filho era privilegiado dos pequenos macacos, pelo facto de ser filho do rei, embora ele não se sentisse como tal, pois não tinha mania da grandeza, era um “simplório”. Todos os dias,ao alvorecer, estes macacos iam em correria para o riacho da sua selva tomar banho e desfrutar de uma bela golada de água fresca, límpida e transparente, para o seu bem-estar e ritmo desaúde. Atiravam água uns aos outros, como se fossem pessoas em tempo de férias. Estes movimentos eram momentos cruciais para a sua saúde. Para além da sua higiene pessoal, faziam ginástica que, de certo modo, lhes fazia bem para as articulações dos membros inferiores e superiores, para reduzir a obesidade e ter
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Foto: Laranjas
um colesterol baixo. Contudo, só se dirigiam para almoçar após terem um bichinho de fome na barriga. Não interessava de todo o horário, e sempre para lá do meio-dia, quer chovesse ou fizesse sol, ou até mesmo ventasse. Assim sucessivamente, todos os dias. Agora perguntas: como eles sabiam as horas? Os animais, talcomo as pessoas nos tempos primitivos, regulam-se pelo Sol. Sejacomo for, os macacos nunca, mesmo nunca, se enganam no horárioda refeição, nem do seu malabarismo ou da sua brincadeira. O rei Jota, como era bastante pesado e porque tinha ali a refeição àespera dele a toda a hora, lambuzava-se com os cocos que estavam ali no chão. Não pensem que eram cocos podres! Eram cocos bons e frescos, cheios de açúcar natural, ou seja, bem amadurecidos. Mas havia um segredo para ele ter ali aqueles deliciosos cocos. O Kito era ágil e, quando o rei dos macacos, seu pai, chegasse ao local, no monte mais alto da selva, o seu filho já estava lá em cima a abanar os canos das árvores de grande porte e a mãe na parte inferior do tronco mais grosso. Depois dos cocos vinham os amendoins, as bananas, os pistaches, as nozes eos pinhões. Para uma dieta mais equilibrada comiam erva todos
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Foto: Maçãs verdes
os dias e caçavam um coelho, uma galinhola, uma perdiz, um rato e um outro animal ou ave de pequena dimensão. A vida destes gorilas era perfeita, só comiam, brincavam e dormiam. Comiam o que a natureza mãe lhes dava, e o trabalho era apenas por acréscimo. Caçar algo e subir as árvores era outro dos exercícios que faziam, para além das brincadeiras na água do riacho. Levantavam bem cedinho, de madrugada, mesmo antes do nascer do sol. Passavam toda a manhã a brincar, toda a tarde a caçar, a subir árvores e a comer. Só ao pôr-do-sol é que vão deitar. O Jota dorme junto ao tronco da árvore mais grossa e mais alta da selva, a Ju no primeiro tronco e o Kito nos canos mais frágeis da árvore. Descansavam e dormiam intensamente, sonhando que quando amanhecesse era outro dia, e sempre a mesma coisa, dia após dia,ano após ano. Toda a comunidade ali existente conhecia bem a famíliados gorilas, não fossem eles os reis daquela zona. Sabiam os usos e costumes do dia-a-dia do Jota, Ju e Kito. Como disse, a vida desta família era sempre, sempre igual. Atéque um dia, depois de desfrutarem de tantas outras manhãs e tardes agradáveis, e de se lambuzarem com vários alimentos, e
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Foto: Limões
de uma noite igual a tantas outras, de sono e sonhos, o Jota, reimacaco, teve um pesadelo - “primeiro, os outros macacos queriam tomar-lhe o lugar, depois os pequenos animais e aves ficaram todos contra a família”. E, sonhando a noite toda, em várias noites sucessivas, durante esses dias seguintes, tudo lhe parecia diferente. Dava-lhe a sensação que olhavam para ele e para a sua família de canto e com ódio, mas era só impressão. O rei nada contou à esposa e muito menos ao filho. O certo é que estava a dar em doido ou talvez estivesse a ficar cheio daquela vida. Um certo dia, a Ju, sua mulher, verificou que os usos e costumes do marido estavam a mudar, e comentou com o filho. Mas o Kito não teria dado por isso e, a partir dali, começaram aprestar atenção. Imediatamente se aperceberam que, de facto, algo se passava com o herói da selva. Após uma semana, a rainha reuniu com o marido e seu único filho para tentar saber o que se passava com o Jota. Aproveitaram uma noite linda de luar e com estrelas a brilhar, e conversaram mutuamente, até que o Jota perguntou a que se devia aquela reunião nocturna. A Ju olhou para o Kito com olhos comprometedores.
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Foto: Maçãs vermelhas
– Que raio se passa aqui? – pergunta o Jota. O Kito, seu filho, ganhou coragem e perguntou-lhe o que é que ele tinha, porque estava a mudar os seus comportamentos, porque grunhia intensamente e gritava de noite.– Pesadelos! - respondeu. São pesadelos que venho tendo durante a noite, noites de insónias, noites que nunca acabam e me perturbavam para o dia inteiro. Até tenho perdido peso por me alimentar mal, pensando que ninguém gosta de mim naquela selva.– Não, não é verdade – diz o Kito. Ju tem a mesma convicção. Já ia para lá da meia-noite quando terminaram a conversa e foram dormir, o pai no pé do tronco da árvore mais alta da floresta, a mãe no primeiro tronco e o filho no topo dos canos da árvore. Nessa mesma noite, o rei não sonhou eteve um dia radiante de alegria. A mulher e o seu filho ficaram contentes. Mas só foi essa noite e esse dia, porque nos dias seguintes continuou a ter pesadelos. Então, começou a pensarem tomar outro rumo de vida; vida diferente daquela vida fácil que vinha a ter e que não o estava a fazer feliz. Ponderou, então, a hipótese de ir viver para a aldeia, ou seja, para perto das casas
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Foto: Abóboras
da aldeia, na ponta da selva longínqua. Do pensamento ao acto foi um ápice. Comunicou à família, e estes aceitaram. O rei Jota sabia que ia mudar de rumo e ter algumas dificuldades na vida do futuro, mas não se intimidava. Dias depois, partiram os três, de madrugada, antes do nascer dosol e sem ninguém saber. Os babuínos, os chimpanzés e os outros restantes animais daquela selva só deram por ela ao nascer do sol. Um mês depois, a família de gorilas chegou à aldeia mais próxima e conheceu novos animais, animais domésticos: as vacas,os burros, os cães, os patos, as galinhas, as pombas, os porcos e outros mais, incluindo os humanos. Verificaram que esses animais viviam entre as pessoas e, por esse motivo, iriam também adaptar-se mais facilmente à nova morada; morada que pertencia à selva, mas no longínquo das grandes árvores, onde só viviam animais selvagens e onde havia grandes ribeiros e muitos alimentos. Só que aqui na aldeia havia poucos alimentos, eram escassos. Na verdade, havia fruta todo o ano, só que em menos quantidade. Na Primavera, tudo verdejava e começava a haver as abóboras que, depois de colhidas, duravam todo o ano. As nêsperas, cerejas,
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Foto: Diospiros
morangueiros e tremoceiros. No Verão, ameixas, pêssegos, abacaxis, figos, kiwis e peras. No Outono, marmelos, nozes, castanhas, diospiros, romãs, uvas, maçãs, avelãs e azeitonas. No Inverno, laranjas e tangerinas. Pela altura do S. Miguel, nos finais de Setembro, faz-se adesfolhada do milho, milho rei e centeio. Os pés de milho são cortados com uma foicinha, pois, nessa altura, os alimentos quase escasseiam. O certo é que esta família de gorilas era habitante de um local específico de planícies e montanhas com árvores de grande porte. Por isso, ia custar-lhes a habituarem-se à nova morada, junto das casas e de animais domésticos. Mas, como é de livre vontade, só o tempo o dirá! Estes animais são os maiores primatas actuais, podem chegar à altura de dois metros quando ficam em pé e pesam em média mais que um humano. Quanto à longevidade, isto é, no que diz respeito à idade, estes animais ficam-se pela metade da idade de um humano. Estes grandes macacos, pelo menos quando chegam à idade de adultos e acompanhados dos seus filhotes, são parecidos com os humanos. Têm semelhanças múltiplas, tanto nas brincadeiras como na
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Foto: Kiwis
alimentação e sexo. Comem, brincam e defendem-se juntos. Se estes macacos vivessem em casas como as pessoas e aprendessema cozinhar, talvez tivessem a mesma alimentação que nós, um avez que são carnívoros e herbívoros. Isto unicamente porque viviam na selva longínqua, mas agora estão perto das casas da aldeia, na ponta da selva, da mesma selva longínqua. Agora, coma nova morada, tudo vai ser diferente para estes mamíferos semeira nem beira, pois foi assim que eles se tornaram. Têm que mudar os hábitos. Mas, como digo, o tempo é que dirá. Estiveram tempos sem um habitar fixo, mas felizes, até parecia que estavama gozar férias, de lado para lado, junto das casas da aldeia e sem se afastarem. Tomavam banho logo de madrugada na piscina da casa de férias de um ricaço, pois não estava lá ninguém. Na hora do almoço iam roubar laranjas, abóboras e kiwis ao lavrador da quinta mais próxima, e caçavam de vez em quando um rato, uma toupeira, um coelho bravo ou uma perdiz. Também iam ao caixote do lixo buscar alimentos cozinhados: uns ossos com arroz ou massa, umas batatas cozidas ou fritas, etc.
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Foto: Javali
Uma galinha ou um coelho mortos por doença, quando não iam à caça de animais domésticos vivos. Um certo dia, esta família encontrou uma corte abandonada, pertoda aldeia. Essa corte era de cavalos, cavalos sem eira nem beira, que galopavam pelos montes fora, semelhantes aos macacos. Nessa corte já lá vivia um porquinho bravo, também ele vindo da selva longínqua, dentro da barriga de sua mãe, que entretanto voltou de férias para a mesma selva longínqua, perto donde veio esta família de gorilas. Apoderaram-se! Fizeram da casota abandonada a sua casa de habitação, juntamente com o outro animal bravo, o porquito que nasceu na aldeia. Já dormiam mais aconchegados, mais unidos que nunca, nem estavam a estranhar a nova morada longe da selva longínqua. Os cavalos, esses não incomodavam muito, só iam lá dormir de vez em quando.
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Foto: Porco macho
O porquito bravo, os cavalos sem eira nem beira, assim como os macacos ficaram amigos deste porco da aldeia, que andava soltoa comer bolotas no exterior da corte. Os grandes primatas começaram bem cedo a partilhar a sua vida com novos amigos, amigos domésticos: os cavalos meio mansos e meio bravos, o porquito bravo e aves mansas e bravas. Na aldeia era tudo bem mais diferente, mais divertido. As pessoas levantavam-se e deitavam-se tarde, ao contrário dos macacos. As crianças iam para a escola, umas a pé outras de automóvel. Também tinham horas certas de tomar o pequeno-almoço, almoço, merenda e jantar. Depois de qualquer refeição tinham o hábitode tomar café e até de fazer uma sesta (dormir uns minutos). Agora, os três macacos da família dos gorilas – o pai Jota, a mãe Ju e ofilho Kito – habituaram-se ao novo estilo de vida na aldeia, longe da selva longínqua.
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Foto: Pomba de leque
Na tal selva longínqua, o pai era o rei dos macacos, a mãe era a rainha e o filho era o privilegiado dos pequenos macacos pelofacto de ser filho do rei, embora ele não se sentisse como tal, pois não tinha mania da grandeza, era um “simplório”. Só que aqui na aldeia não havia reis, eram todos os animais e pessoas respeitados, cada um no seu lugar. Só assim havia liberdade. Por isso, a humilde casota dava para todos os animais que quisessem partilhar. Nesse sentido, a pomba de leque foi fazer o seu ninho no telhado da corte onde vivia o porco manso da aldeia e onde se alojaram o porquito bravo, os cavalos sem eira nem beira e os macacos gorilas. Esta pomba partilhou, na época de acasalamento, os beirais da corte com as andorinhas e com o carriço. Tudo isto por terem liberdade, liberdade de viver. A vida destes gorilas era perfeita: só brincavam, comiam e dormiam. Comiam o que a natureza mãe lhes dava:
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Foto: macaquito domésticado
a fruta das árvores da quinta que circundavam e alguns alimentos que surgiam por acaso. Caçar e subir às árvores mais baixas da aldeia eram outros dos exercícios que faziam, para além das brincadeiras na água da piscina do vizinho. O trabalho, esse, era apenas por acréscimo. Um certo dia, a mãe Ju começou a ter tonturas e enjoos, até que o pai Jota pensou voltar para a selva longínqua, pensando que a sua parceira estava doente. Mas, o filho Kito não aceitou e ia atrasando a partida. Os meses decorriam e a Ju apercebeu-se que andava prenhe (grávida). Quando disse ao companheiro e ao filho, explodiram de alegria. O Kito correu pela aldeia a manifestar-se do caso e o pai desistiu de voltar para a selva. Quando a Ju acabou o tempo de gravidez, pariu (deu à luz) umfilho, a quem deram o nome de Keke. Mais tarde, quando o Keke começou a andar, o seu irmão Kito foi passeá-lo pelos montes e aldeias da terra das pessoas e dos animais domésticos. Até começaram a brincar com as crianças. O Kito começou a ter ciúmes do Keke por os meninos da escola brincarem mais com o irmão. Até levaram o Keke à escola deles e apresentaram-no aos professores. O Kito não gostou. Então, o filho mais velho do casal de gorilas foi ficando irrequieto e mal comportado. Mais tarde, quando souberam do problema psíquicodo filho, o pai Jota e a mãe Ju chatearam-se com o Kito e deram-lhe uma lição de moral, impedindo-o de sair de ao pé deles, durante longos meses. A partir daí, voltaram a ser amigos e viveram felizes para sempre, longe da selva longínqua.
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Desenho:
Aldeia com estrada, 1989 “Quelhas” (pintura a lápis de cera e cor)
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Inspiração do Compositor
Todos nós somos iguais no pensamento, diferentes nas imitações…
João Carlos Veloso Gonçalves “Quelhas”
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Desenhos:
Charlie Chaplin, 1988 “Quelhas” (pintura a lápis de cor)
Policias na reforma, 1978 “Quelhas” (pintura a lápis de cera/marcador)
Polícia discreto, 1988 “Quelhas” (pintura a lápis de cor/marcador)
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Na escola
“No segundo ano de escolaridade, no livro de fichas do ensino básico, no ano de setenta e oito, o aluno José Coelho da Costa tinha uma questão particularmente engraçada, que era a seguinte:
– Inventa uma frase sobre ti, o coelho e o cão. E o aluno escreveu: “Eu gostava de ser cão para caçar o coelho e devorá-lo”. O Prof. de Português leu e os colegas riram às gargalhadas. Diz o colega de secretária em jeito de piada:
– Então, se ele fosse cão, chamava-se “José Cão da Costa.” Os colegas até choraram de tanto rir...”
“As crianças são a maior proeza!”
“Inspirado num texto escolar.”
in João Carlos Veloso Gonçalves, Inspiração do Compositor, 2006, p. 169.
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Desenho:
No mar até ao limite, 1990 “Quelhas” (pintura a lápis de cera/marcador)
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No mar até ao limite...
“No Verão quente, Para o mar vai gente, Principalmente o Marquito, Todos os dias no seu barquito... Contente! Gritava às gargalhadas, Nas águas geladas... Apanhando luzerna de sol, Por vezes fica um pouco mole... Com um grande vermelhão, Indo ficar num escaldão… Suas roupas e suas botas, Lá no solo de areia ficam, Olhando para as gaivotas, Que mergulhando, peixes picam... Com a pilota a abanar, A Gabi a olhar, A Mãe tirando fotos, E o Pai a filmar... E o dia ia escurecendo, Mal o sol se vê.
– Leandro!
– Mãe! Que quer você?”
“ Só a noite lhes traz sossego!”
in João Carlos Veloso Gonçalves, Inspiração do Compositor, 2006, p. 66.
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Desenho:
Rosa vermelha, 1991 “Quelhas” (pintura a lápis de cera)
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Foto: Flor
Primavera
“Vem a Primavera com um ar triste e cansado, mas com um ar mansinho, espreitando. Pois o Inverno acabou agora mesmo de findar. As noites frias foram-se embora e vêm os dias amenos e verdejantes. Pois surgem os rebentos das árvores, das fruteiras e das plantas. E não faltam flores de cores várias, entre cravos e rosas vermelhas, amarelas e brancas, de todos os estilos e tamanhos. Os amorescobrindo campos, as giestas e o mato com o branco e o amarelo contrastando na cor. As pétalas, os malmequeres, as orquídeas eas jarras no jardim do vizinho.
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Um ambiente de som e cântico dos passarinhos no espaço, sobrevoando em direcção a um vinhedo, a um pinhal, a um silvedo. O peto negro picando um tronco no quintal, uma poupa enfiando-se num buraco da calçada, um carriço fazendo um ninho num cantinho, uma andorinha pousando num beiral, uma águia em direcção à floresta. Na noite, uma coruja assustando e muitos morcegos sobrevoando. Cheira a Primavera! As pessoas começam a libertar-se da roupa, usando t-shirts finas, calções, chinelos e ténis. Os dias ficam grandes. À medida que eles passam, a vegetação cresce lentamente, escondendo os ninhos e começando a nasceros frutos, gerados lentamente, sem que nos apercebamos. O lavrador semeando milho, batatas, centeio, cebolo, feijão, favas e ervilhas. Primavera é cor e alegria! O rato destruidor roendo, o javali rilhando, o coelho ceifando. O menino caçando borboletas na horta. O pai sulfatando o vinho e deitando pesticida no batatal. A mãe regando o milho, as couves, as cenouras... É Primavera! A verdura, o cântico, o calor, o trabalho… A colheita, em geral, faz desta época um trimestre fascinante decor e alegria, com mais trabalho também, com certeza!
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A fruta da época, os produtos hortícolas, os ramos de flores evários alimentos mais tardios, que são frutos deste tempo detrabalho! Para colher para o S. Miguel, o vinho que nos anseia a sede... Mas, a Primavera para outros são férias, o campo, as amendoeiras em flor, o mar e o lazer, a pesca e a caça, a merenda, o campismo. Daí, cheira a Verão, uma mudança lenta, mas que se entra nela sem nos apercebermos. Porque, na verdade, a Primavera é uma estação do ano estável e serena, com movimentos e cores, alegria e disposição, onde o tempo é saudável, deixando o Inverno e abraçando o Verão.”
“Primavera é Maio, Ano, Aurora, Buganvília, Despontar, Prímula e Juventude!”
“O escritor tem liberdade de pensar…”
in João Carlos Veloso Gonçalves, Inspiração do Compositor, 2006, p.131.
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Desenho.
Inverno, 1988 “Quelhas” (pintura a lápis de cor/marcador)
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Naquela época de Inverno
Observando no ponto mais alto de uma montanha vejo altos e baixos, uma capela numa rocha, uma nascente a sufragar entre pedras de uma cachoeira até ao leito de um rio que desagua numa barragem e dá lugar à saída de um canal que, por sua vez, faz energia eléctrica através de turbinas. As casas em partes mais baixas de cada monte parecendo miniaturas com a sua longevidade, as luzes que brilham no fundo mais parecendo estrelas no céu. Ao anoitecer vi o Sol a rugir e, sem tirar os olhos daquele fenómeno, esconder-se milímetro a milímetro até ficarem nada. As torres eléctricas na encosta piscando constantemente em feitio de estrela cadente, nos pontos mais desamparados do cimo das serras designadas por gamesas eólicas de energia a vento, que dão lugar à mais moderna central de luz eléctrica.
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As pequenas fogueiras transformando-se em cordas de fogo, alastrando lentamente no longínquo da vista, com proporções lastimáveis e de preocupação, devendo-se ao estado do tempo seco e de vento, neste dia da época de Inverno que mais pareciaVerão. Os carros de casais com filhos regressando a casa, os namorados que ficam a sós e em fúria, que embaçam os vidros dos carros a saltitar de pequenos ruídos e gemidos, em linha recta, de trás dos penedos, em qualquer lugar sem olhar a quem. O céu circundando o cume das montanhas que retratava um chapéu redondo e circular acentuado, mais parecendo anteceder zonas vulcânicas. A noite ia passando e a Lua tinha cada vez mais claridade, as estrelas reluziam no céu até que, pouco a pouco, as pessoas iam fluindo sem deixar rasto, que amanhã era outro dia.
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Foto: Porco a comer abóbora e Galinhas
O porco
- Quando está enjoado, vomita.
- Quando está gripado, funga o nariz.
- Quando está a chorar, limpa as vistas.
- Quando está com a bexiga cheia, faz chichi.
- Quando está com a garganta inflamada, cospe.
- Quando está a ouvir mal, tira a cera dos ouvidos.
- Quando está preso dos intestinos, sofre, sofre, sofre e…
Um porco é um animal,
O animal é um porco.
Qual é porco, afinal?
Dos dois, um é torto!
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Desenho:
Luar, 1986 “Quelhas” (pintura a guache)
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Foto: Autor a andar de barco no mar
O meu barquinho de papel
O Manel comprou um jornal, para fazer um barco de papel. Andou um mês a construir, ou seja, vinte e oito dias (28). Sim! Porque acabou noúltimo dia de Fevereiro. Pois guardou o seu barco nolago, ao pé de sua casa, sem ninguém saber. Só mais tarde, no último dia do ano, ou seja, aos trezentos e sessenta e cinco dias (365). Sim! Porque acabou o ano comum. Pois ofereceu o seu barquito de papel à sua namorada que fazia anos, e ela contribuiu com um anel. Então, foram para o barco flutuar, e então abraçar e beijar, começaram a transpirar… O barco de papel começou a molhar.
- Ai, meu Deus!
- diz o Manel.
- O meu barco de papel vai afundar,molhado por fora e por dentro. Tinha que acontecer!
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Ainda por cima, começou a chover! Entristecidos, saíram do barco de papel a correr, indo tomar um café ao bar, mesmo ali ao lado. Depois, então, parou a chuva e voltaram, viram e amuaram. O barco de papel estava a flutuar, e quase a afundar. No ano seguinte, vinte e nove (29) de Fevereiro do ano bissexto, construiu um barco de madeira, para a vida inteira, que o Manel guardou na garagem. E em trinta e um (31) de Dezembro, ofereceu seu barco de madeira à sua namorada que voltava a fazer anos. Contribuiu com outro anel, agradeceu o Manel. Então, foram para o barco flutuar, e abraçar e beijar. Quando deram por ela, estavam em alto mar. Assustados, voltaram para se casar e serem felizes para sempre.
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E o Manel contente. Quem o dizé a namorada,emocionada e feliz. Coerente e corada, enamorada, para subir ao altare ir então casar. A Maria e o Manel iam dar a mão, sair desta confusão. No dedo pôr o anel com muito jeito e dizer: Sim, aceito! A ti te escolhi, e contigo serei feliz. E far-te-ei tudo, tudo que te prometi…
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Desenho:
Natal, 1989 “Quelhas” (pintura lápis de cor e borrona)
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É Natal!
“É Natal, é Natal, é dia de festa, Que belo dia este! Só um dia lindo como este Por ano nos resta... Um dia muito querido E, porém, divertido... É Natal, é Natal, é dia de fantasia, Que bela coisa minha alma contém! Lembro-me das crianças E dos velhinhos também... Oferecendo carinho absoluto, Desde o nascer do Sol Ao aparecer da Lua. Dou meu contributo, E a minha alma será toda tua... É Natal, é Natal, é dia de Ceia, Com a família. Confessam as mágoas da minha alma, Não esquecendo os doentes, Ficando a semana toda mais calma...
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É Natal, é Natal, é dia de consoada e doces, Um dia muito querido, que a todos nos resta... Festejar e divertir, conversar e sorrir, Desde o poente, Entrando noite dentro, E curtir… Menos o familiar daquele doente, Que dá as boas-novas para ele depressa sarar... Todos os outros têm a noite por sua conta, Porque é Natal que se aponta... É Natal, é Natal, é dia de alegria, Só vivem tristes os doentinhos, Que estão quase em agonia… Em contrário, vivem as crianças contentes, Com os seus presentes... É Natal, é Natal, é dia de rir e chorar, Não esquecendo os sãos, Que têm os seus para olhar...
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É Natal, é Natal, é dia de paz e luz.É Natal, é Natal, um dia de muito champanhe. É Natal, é Natal, é dia de bacalhau e peru. É Natal, é Natal, é dia de chorar e rir, É dia de Natal, é dia de família, Por agora me vou despedir. Feliz Natal desejo, E um próspero Ano Novo, Mando um grande beijo, Este “pequeno”, “grande” poeta, Para o meu POVO.”
“Todos os dias são Natal, se nós quisermos!”
in João Carlos Veloso Gonçalves, Inspiração do Compositor, 2006, p. 47.
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Desenho:
Sol poente, 1987 “Quelhas” (pintura a guache/marcador)
Lua crescente, 1986 “Quelhas” (pintura a guache)
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Foto: Autor junto de uma cachoeira
Bom astral
Como todas as noites vou dormir. Como gosto muito de dormir e… Tenho a doença do sono. Sonho, sonhando que não consigo dormir. Então, vou para a janela do meu quarto sentir aquela aragem a deslizar suavemente no meu rosto e ouvir o zumbir do vento no silêncio da noite. Vejo as estrelas e a lua. As estrelas de vez em quando caem no inverso de um foguete a subir, mas sem foguear e sem estoirar, unicamente em silêncio. Sonhando intensamente, estive a ver se via um anjo. Mas não! Só via morcegos e… Nem pelo menos uma coruja! Ao longe ouvia um cão a uivar, um galo a cantarolar e… Já era de madrugada quando dei por ela.
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O relógio despertou e… Eu acordei. Era mesmo de madrugada. O cão a uivar e o galo a cantar, até parecia estar mesmo a sonhar. Mas não! Estava mesmo estremunhado. Levantei, lavei a cara, penteei, coloquei espuma no cabelo, deitei nívea na cara e perfume na camisa. Comecei um novo dia, bem disposto, confesso! Que passei a noite acordado, mas só no sonho! E este era suave e leve, como aquela noite de luar. Pois assim vale a pena sonhar! E levantei, fui tomar um café, sorridente como sempre, brincar com quem me cruzo, e ser eu, somente eu…
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Quadras de Natal
“É Natal, é Natal,
É Natal em Belém,
É Natal em Portugal,
E em todo o Mundo também.
O menino nasceu em Belém,
Nasceu tão sozinho,
Para nos querer bem,
E ser nosso amiguinho.
Nasceu sobre as palhas secas,
O nosso DEUS menino,
No presépio relembramos,
O seu amor divino.
Veio para connosco sofrer,
E ser pregado na cruz,
O nosso DEUS menino,
Tem o nome de Jesus.
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Ele tem uma alma boa,
Que nasceu com seu destino,
De espinhos é sua coroa,
Deste pequeno menino.
O DEUS menino veio ao Mundo,
Para fazer caridade,
Neste dia profundo,
Pregar sua pura verdade.
Este DEUS menino louvado seja,
Com a sua forte luz,
Também nossa casa festeja,
O Natal, lembrando Jesus.”
“A festa de Natal é da FAMÍLIA, é de todos nós!”
in João Carlos Veloso Gonçalves, Inspiração do Compositor, 2006, p. 89.
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Metáforas
Quando quiseres ver metade da terra e metade do mar ao alcance da vista, entra pelo mar dentro ou sai dele e entra novamente na terra. Observa à tua volta! Vê se enxergas a terra e o mar em forma de lua cheia! E a terra só, e a lua só, em forma de meia-lua, crescente ou minguante! Os dois juntos formam o feitio do globo em miniatura… Circular, confuso, com as paredes do céu fosco, poisando em paredes-meias com o mar e a terra poluídos…
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Desenho:
Poluição no rio, 1990 “Quelhas” (pintura a lápis de cera e Borrona)
Rio na aldeia, 1990 “Quelhas”(pintura a lápis de cor e cera)
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O livro da criança
Eu antevejo ou não a utopia do sonho!
Cada criança um Anjo,
com o seu sorriso divinal
e sua inocência nítida.
Não seja ela um Anjo!
João Carlos Veloso Gonçalves (Quelhas)
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Desenho:
Corações – eu, tu e ele! 1991 “Quelhas”(pintura a lápis cera)
Igreja da Goma, 2007 “Quelhas”(pintura a Borrona)
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Foto: Vista paísagistica
Eu antevejo ou não a utopia do sonho!
Todos os dias me deito para lá da hora, seja Primavera, Verão, Outono ou Inverno. Quando caio na cama, num instante adormeço. Tenho que dormir depressa para, no dia seguinte, bem disposto acordar. As noites são grandes, sim! Para quem se deitar com as galinhas… Mas, para mim a noite voa. Por me deitar a meio da mesma noite, pois claro! – Porquê? – perguntas tu. São apenas métodos de vida, que adoptei em contorno da minha ocupação diária. Por isso, tenho mesmo pouco tempo para dormir e sonhar… E tu sonhas?
Sonho é fantasia…
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Pois tenho a certeza que sim! Quem deita cedo como tu, tem muito tempo para sonhar. E quanto mais dormes, mais te apetece dormir. Já eu, não! Tenho pouco tempo para aturar fantasmas, que amanhã é outro dia turbulento. Posso até não me cansar muito fisicamente, mas canso o meu consciente. Agora tu, que deitas cedo e levantas cedo, estás doze horas a dormir. E não te esqueças que, quanto mais dormes, mais te apetece dormir. E eu que me deito ao meio da noite e levanto tarde, acabo por dormir pouco e não ter mesmo tempo para aturar fantasmas. E tu? Sim, tu! Passas as tuas noites fantasmagóricas, o teu espírito solta-se do corpo e voa para o além…Sonhos atrás de sonhos… Conversas com mortos, entras no Céu, ficas à porta no Inferno com medo de entrares. Foges como um louco de quem te quer fazer mal.
Sonho é devaneio…
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Matas cães pela boca. Voas no infinito. Transformas-te em fantasma, etc. E quando acordas estás cansado. Não valeu de nada dormir tanto. Eu, que durmo depressa, acordo leve e pronto para lutar com os problemas do quotidiano, para brincar contigo e com ele, e ser sempre a mesma pessoa divertida, ao contrário de ti. E tu perguntas se eu também sonho!? Claro que sim! Só que pouco tempo. Se durmo pouco, não posso sonhar muito! Sabes bem que, quanto mais dormes, mais te apetece dormir. E mais tempo tens para sonhar… Eu!? Claro, eu! Como durmo pouco, também acordo mais ao longoda noite. Por isso, é mais saudável. Oiço o cantar da coruja, as chiadas dos morcegos, o roer do rato, o canto de um galo, o vento a zumbir…
Sonho é quimera…
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A chuva subtil no telhado. O granizo ensurdecedor. Um camião passando de madrugada. E tu? Só se for em sonho! A não ser que oiças o galo depois de levantar! Pois, se eu durmo pouco, o meu sonho é leve. Se tu dormes muito, o teu sonho é pesado. Aí a diferença saudável em relação à outra que é turbulenta. Mil pessoas, mil sonhos diferentes, uns saudáveis outros fantasmagóricos, outros sobrenaturais… Mas não deixam de ser sonhos surrealistas. Podemos sonhar coisas no obscuro ou coisas no aparente! Podemos mesmo viver coisas do passado, num ente querido! Ou coisas do futuro! Encarnarmos noutras vidas e prevermos o que vai acontecer!Ou até mesmo ver coisas que já passaram antes de termos nascido!
Sonho é ficção…
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Nunca te aconteceu sonhares com algum lugar? E que mais tarde ou mais cedo encontraste esse lugar onde nuncaestiveste? E com algumas pessoas que nunca tenhas visto? E falares com as mesmas pessoas do sonho? Pois isto não é superstição, mas uma realidade prevista na maioriados casos. Pois eu digo com convicção que já me aconteceu: os sítios e as pessoas. Pensa o que quiseres! Até podes dizer que sou louco! Só te posso dizer que, posteriormente ao sonho mesmo tardio, e quando tive o prazer de encontrar ao acaso esse momento e conversar com as pessoas como se já tivesse grande confiança e auto estima, senti-me feliz de viver esse momentoenigmático… Que o conteúdo da conversa não seja de todo interessante. O que interessa é encontrar algo que vi no meu subconsciente…
Sonho é visão…
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Tu, ao contrário de mim, vês coisas não existentes mas, mais tarde encontrarás esse sonho como eu. Hás-de sempre acordar com mau feitio… Pergunta-me então se eu nunca sonhei! Com coisas impossíveis, do outro Mundo, coisas diabólicas ou com a transformação do planeta. Claro que sonho! Mas muito menos que tu, que tenho pouco tempo para dormir. Ao contrário de ti… O certo é que sonho! Mas quase sempre sem me assustar, e quase sempre com a natureza mãe, embora assustador para ti e para a humanidade… Não sei se já acontecera ou se vai mesmo acontecer. Ou se saiu apenas da minha cabeça louca. Não te assustes, que eu vou mesmo ter de contar o que já sonhei algumas vezes. Não sei se estes sonhos têm a ver com alguns filmes, como por exemplo o Titanic, o fenómeno dos asteróides, o eclipse mortal ou a Arca de Noé.
Sonho é ilusão…
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Só sei que sonhei mesmo! E espero, nunca aconteça (o fim do Mundo…) um tornado de vento, que partiu de uma nuvem até alguém, esugou-o sem deixar rasto. Um ciclone que tudo levou à sua frente… Menos eu! Os meteoros que caíram em lagoas e ficaram a arder… As estrelas, a lua e o sol que se tocaram mutuamente e fizeram uma radiação solar, queimando as paisagens, os animais e as aves, sem dó nem piedade… Uma erupção vulcânica que fez um rio de lume até à povoação… Uma nuvem escura que tapa repentinamente o sol e larga pedras de granizo, destroçando tudo o que é envolvente…
– Só isso? - perguntas. E tu achas pouco! Espero que seja só em sonho, que na realidade seria penoso demais.
Sonho é utopia…
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Tanto assim, estou a resumir estes mesmos sonhos. Sabes que o ambiente terrestre está em contínua mudança: apoluição atmosférica; a temperatura; a velocidade do vento e odióxido de carbono. Esses poucos sonhos vão ao encontro da realidade. Sinceramente, espero que não aconteça. Não penses que sou psicopata! Ou um médium! O certo é que, nos sonhos tudo é fictício. E nunca me assustei. Apenas acontece mal aos outros, e não a mim, embora já tenha estado aflito! Mas por pouco tempo, sim! Que logo, logo acordo, que tenho pouco tempo para dormir! E tu? Até deves chegar a morrer!
– Afinal, dizes que não sonhas e estás a contar teus sonhos! Claro que eu sonho, mas menos que tu! Agora vou contar-te que vivi um dia uma grande mentira, quando estava na casa que me viu nascer.
O sonho é idílio…
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Os caminhos encheram-se de água, em grandes ribeiros, na direcção do rio. Estava luar, as estrelas a brilhar e não chovia. Era de todo impossível entender de onde vinha tanta água por ali abaixo. O certo é que, lá no fundo da freguesia, a barragem enchera até à estrada, deixando algumas casas submersas. Os carros a transitarem, claro, fugindo. E eu acordei aflito e volteia adormecer. Acordava, voltava a dormir e pegava novamente no sonho… Antes, talvez estivesse com a minha mãe e meus irmãos. Depois, estava com minha mulher e minhas filhas, e sempre que acordava sonhava ou pensava como havíamos de fugir: talvez a direito e até ao ponto mais alto. Mas antes de fugir, soltara todos os animais para eles se poderem defender: as ovelhas, os coelhos e as galinhas. E voltava a dormir. Mas havia ali algo que não percebera, nem antes nem agora! É que envolvia sempre uma criança de tenra idade, uma criança recém-nascida, embrulhada numa manta branca.
O sonho é mau feitio…
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Éramos só nós lá em casa, a família. Não se via movimento de pessoas no lugar. Até que me assustei de repente! Uma força imunda de água veio debaixo para cima. Sendo assim,a água andava mais alta que a própria barragem. Tudo levava a crer que, dali para baixo, todos os lugares estavam submersos. Até parecia que o mar tinha vindo por aí acima, embora eu da minha janela não visse. Uma corrente tão forte como se fosse uma barragem que rebentasse, mas em sentido contrário. Não era a nossa barragem, pois a água estava a vir por aí acima e mais alta que o paredão da barragem. Daí a segundos, estava a água exactamente no piso debaixo dacasa; subiu a enxurrada num instante. Toca a acordar a minha família e o suposto bebé, pois a água tinha que parar mesmo ali. E eu continuava sem correr perigo, como sempre. Não sei porquê! Só sei que não corria qualquer perigo nos meus sonhos. Assim valia a pena sonhar! Até pareço um artista de um filme que nunca morre. Voltei a acordar e, claro, fiquei com aquilo em pensamento.
– Mas porquê!?
O sonho é turbulência…
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Não te sei responder. Pensas que estava a gostar? Mas não, porque cheguei a ver-me aflito… E voltei a adormecer, peguei no sonho novamente, mas numa fase mais adiantada. Não me lembro de ter fugido, só me lembro quando acordei de planear fugir. E decerto foi isso que aconteceu. O sonho que peguei levou-me ao ponto mais alto do monte da minha aldeia. A água estava já a aproximar-se dos pés, então conversei com minha mulher e minhas filhas para que entrássemos na água delivre vontade, pois assim custava-nos menos a afogar. A tal criança ali já não existia. E eu estava mais tranquilo. Assim foi, começámos a nadar. Não é que a água começou afastar-se num impulso! Acordei novamente em paz. O certo é que voltei a adormecer e, teimosamente, o meu consciente voltou a pegar no sonho. Estavam todos a dormir. Vim à janela e vi, no fundo do lugar, tudo com vida, as luzes acesase a barragem no lugar.
O sonho é alucinação…
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Fiquei contente! E não persisti mais no tal sonho. De manhã, pus-me a pé e verifiquei que, afinal, nem dormi na casa que me viu nascer, mas sim na minha casa actual. Perguntas-me, afinal:
– Tu também tens sonhos fantasmagóricos? E ainda dormes poucoe depressa? Sim! Que eu ontem dormi de tarde, fiz uma sesta, e hoje a noite tornou-se longa… Não sei se serão sonhos do Além! Ou se serão apenas um aviso! Que para além da atmosfera, a humanidade está cheia de pecados, e um dia vamos ter o fim do Mundo para qualquer inocente, velhinho ou doente. Não seja aquela criança! Criança que narrei no texto. A não ser este sonho, uma visão da Arca de Noé!Quando eu me deito é para lá da hora e tenho que dormir depressa para não ter sonhos destes. Que eu não me deito com as galinhas, para poder sonhar como tu. A não ser que seja infeliz noutro sonho…
O sonho é surrealismo…
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– Porque é que sonhas sempre com a criança do sonho que nuncaexistiu?
Aí a pergunta para muitas respostas. A criança talvez fosse aquele feto (menina) que era para ser o primeiro filho ou talvez aquele feto (menina) que era para ser o último filho, e abortaram. Istotudo por força da circunstância e pelo azar da vida que me ficou no subconsciente sem culpa nenhuma…
– Porque é que sonhas sempre com a tua terra, a terra onde nasceste?
Aí a pergunta para muitas respostas. Pois, digo e afirmo que todas as pessoas, principalmente os nossos queridos emigrantes, um dia, quando regressarem, querem ir para a sua terra Natal, com que toda a vida sonharam, assim como eu.
– Porque é que sonhamos com a nossa terra? pergunto eu. É porque queremos um dia voltar! A questão de nunca esquecermos a nossa terra e vermo-la em diversas formas imaginárias, é pelo facto de termos e querer mosmatar saudades da pátria.
Eu sonho… Tu sonhas… Ele sonha… Nós sonhamos… Vós sonhais… Eles sonham…
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São apenas sonhos, Todas as minhas noites, Vivo-as interiormente, Para que me afoites… Se no dia seguinte acordei, E relembrei um sonho, Vivo o dia-a-dia eternamente, E contigo sempre sonharei… Na minha terra sonho contigo, E comigo vivo a sonhar, Sejas feliz além amigo, Adoro-te e hei-de adorar… Nos meus sonhos há fantasia, E também muita verdade, Vivo-os com alegria, Para uma eternidade… Eu antevejo ou não a utopia do sonho! Assustador, triste ou risonho, Na verdade, na crítica ou na ilusão. Relembro, sim, um ente querido no coração... Todos nós sonhamos acordados ou a dormir, Ressonamos, não digas não que estás a mentir, Que a utopia do sonho é magia em si a fluir… Para sonhares basta teres alma!
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Pinturas & textos
Desenho:
Abstracto, 1990 “Quelhas” (pintura a caneta)
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Desenho:
Torres gémeas: abstracto em xadrez, 1998 (Quelhas) (pintura a caneta)
Em mil novecentos e noventa e oito nada fazia prever a catástrofe das torres gémeas, na América. O facto é que, mais tarde, aconteceu. O autor desenhou, não sabendo se foi intuição ou coincidência.
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Desenho:
Amor, 1984 (Quelhas) (pintura a marcador)“
O amor não é só um simples gesto, nem duas de conversa. O amor é ser capaz de ter alegria com a alegria do outro. É esse o segredo da felicidade. Amar é ter boas palavras para dar e receber. Não é só estar junto dele ou dela e trocar meia dúzia de beijos,ou até mesmo ter relações sexuais. Pois quando se ama dói cá dentro. Sofrer nem sempre é de amar, mas amar é sempre sofrer…”
in João Carlos Veloso Gonçalves, Inspiração do Compositor, 206, p. 127.
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Desenho:
Arco-íris, 1986 (Quelhas) (pintura a guache)
O arco-íris é um fenómeno natural que separa a luz do Sol, e temsete cores: vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, anil e violeta. O meu desenho abstracto do arco-íris, em pintura de guache, relatagotas de água no ar e a luz do Sol a brilhar a baixa altitude.
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Desenho:
Cemitério, 1987 (Quelhas) (pintura a lápis de cor)
O cemitério abstracto, escuro como a própria noite, negro comoa própria morte, mas só para os mortos!
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Desenho:
Entrudo, 1990 (Quelhas) (pintura a lápis de cor)
“Na minha Póvoa, no Carnaval da criança, não há dança, mas fica na lembrança… Os jardins infantis e o lar da terceira idade, encanto e alegria com vaidade de verdade… As escolas enfeitadas com gosto,os velhotes no suposto, com tinta no rosto… E com um sorriso nos lábios, um popular, sem falar e indo a tropeçar… Alguns conjuntos de mascarados, fazendo palhaçadas aí por todos os lados…”
in João Carlos Veloso Gonçalves, Inspiração do Compositor, 2006, p. 41.
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Desenho:
Globo, 1987 (Quelhas) (pintura a lápis de cera)
· “O Mundo pode ser uma bola que gira vinte e quatro horas por dia e que nos põe a cabeça a andar à roda deincertezas...
· O Mundo pode ser uma bola que acaba onde começa...
· O Mundo pode ser um computador que calcula e,através da Internet, põe em sintonia todo o Mundo...
· O Mundo que você conhece é o nosso Mundo; pode ser oque você quiser e esteja no imaginário...”
in João Carlos Veloso Gonçalves, Inspiração do Compositor, capa, 2006.
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Desenho:
Outono, 1988 (Quelhas) (pintura a lápis de cera)
O Outono vem vindo, as folhas vão caindo, e o Inverno está àporta para depois ir abraçar a Primavera que antecede o Verão eas férias grandes da escola, para te deliciares com a Mãe Natureza.
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Desenho:
Paz e amor na praia, 1988 (Quelhas) (pintura a marcador e lápis)
“E o amor é tão bonito...
Quando me lembro, nem acredito!”
Sonhando na praia, vendo-nos em forma de coração, livres como gaivotas voando no espaço.
in João Carlos Veloso Gonçalves, Inspiração do Compositor, 2006, p. 71.
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Desenho:
Ponte, 1986 (Quelhas) (pintura a lápis de cera)
A ponte sobre o rio.
A água saltitando nas pedras.
O azul do céu.
O verde contrastando na Primavera.
89
Desenho:
Eclipse da Lua, 1986 (Quelhas) (pintura a guache)
O eclipse da Lua é quando a Terra está precisamente entre o Sole a Lua.
A Terra tem forma esférica e, quando é Lua cheia, projecta a suasombra sobre a Lua, tapando-a da nossa vista e ficando aatmosfera escura…
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Desenho:
Ponte, 1986 (Quelhas) (pintura a guache)
Uma ponte é passagem para outra margem, onde se pode pescar peixe desde que haja rio.
De preferência, quando as plantas florirem e o azul do céu contrastar com a água límpida, vendo as nuvens no seu próprio espelho de magia. A atmosfera, nestas condições, é convidativa para as famílias e grupos de amigos fazerem piqueniques, levantando cedo e regressando tardiamente a casa…
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Desenho:
Casa no campo, 1989 (Quelhas) (pintura a lápis de cor e cera)
O imaginário da minha casa no campo. O azul do céu contrastando com o verde da paisagem, no sucumbirdo dia, aproximando-se da noite estrelada e de luar.
92
Desenho:
Palmeira no lago, 1988 (Quelhas) (pintura a lápis de cera e cor)
A natureza é bela, se olhares por ela!
Se tiveres a liberdade de voar como um passarinho, de seres transparente como a água do lago e viçoso como o verde da Natureza Mãe.
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O livro da criança
Colaboração
O amor é a mentira da verdade…
João Carlos Veloso Gonçalves “Quelhas”
94
Foto: Ângela, colaboradora
4 comentários:
Gostei do que vi e li, este espaço está a maravilhar-me, tem sofrido modificações, tb não estava concluído!!! Os textos estão muito lindos,sei que ainda faltam texstos, porquê?
Gostaria de ver as fotos e os desenhos que referem... Gostava também de participar num livro, mas já não ando na escola. Bom sucesso para o escritor e obrgado à Ângela por partilhar este espaço com os leitores. Bjnho.
Cada livro
Cada momento
Este é um momento lindo
Unico
Literário
De coragem
Fantasiado na inocência
Hajam mais livros virtuais
Para aprendermos com eles
Ou pelo menos termos habitos de leitura
Nem que seja em histórias no faz de conta
Interessante
Objectivo
Diferente
O mundo poderia ser melhor
Quem me dera ser aquilo que tu és!
E, quem te dera ser aquilo que eu sou!
Nesse sentido, talvez, fossemos;
Mais sábios e menos ignorantes,
Mais humildes e menos brutos,
Mais amigo do teu amigo,
E, e menos destruidor de ilusões.
Se de facto pudéssemos juntar as nossas qualidades,
O mundo iria viver melhor…
Se eu soubesse o que tu sabes!
E, tu soubesses o que eu sei!
Nunca jamais;
Descobríamos os nossos defeitos.
Uma vez que não é possível!
Podíamos ser mais unidos,
E, a hipocrisia dava lugar a um bom senso.
"Quelhas" autor dos pobres.
Por favor entre neste LINK: http://w0.mail.sapo.pt/imp/message.php?mailbox=INBOX.Rascunhos&index=424
parabéns garotada sucesso vcs e os professores fiz um grande trabalho . Nivaldo J G 17/06/2013
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